O GRANDE LAGO ARTIFICIAL E AS MEMÓRIAS DE UMA ALDEIA SUBMERSA – DO PROCESSO DE DESTERRITORIALIZAÇÃO AO PROCESSO DE RETERRITORIALIZAÇÃO: O CASO DA ALDEIA DA LUZ (ALENTEJO, PORTUGAL)

RESUMO
A desterritorialização é um problema actual. O sentimento de pertença que nos une a um território está sujeito a diversos riscos tais como: guerras, crise económica, catástrofes naturais ou neste caso, devido à construção de uma barragem.
No caso da barragem de Alqueva (Alentejo, Portugal), para uns esse empreendimento é sinónimo de factor estratégico para o desenvolvimento do Alentejo e para outros é visto como um elefante branco com impactes inaceitáveis.
A partir deste último elemento, pretendemos analisar de forma geográfica os efeitos na população da aldeia da Luz, uma vez que esta viu-se “obrigada” a sair do seu território para um outro território (a nova aldeia da Luz) planeado e construído de raiz, em consequência da construção da barragem de Alqueva.

Palavras-chave: Desterritorialização; Reterritorialização; Barragem de Alqueva; Aldeia da Luz.
ABSTRACT
The deterritorialization is a current problem. The sense of belonging that binds us to a territory is subject to various risks such as war, economic crisis, natural disasters or in this case, due to the construction of a dam.
In the case of the Alqueva Dam (Alentejo, Portugal) for a project that is synonymous with strategic factor for the development of the Alentejo and for others it is seen as a white elephant with unacceptable impacts.
From this last element, we intend to analyze it geographically the effects on the population of the village of Light, as this was seen “forced” to leave its territory to another territory (the new village of Luz) planned and constructed root as a result of the construction of the dam alqueva.

Keywords: Deterritorialization, Repossession, Alqueva Dam, Village of Luz.

INTRODUÇÃO

O artigo centra-se no contexto das alterações sócio – espaciais, devido à desterritorialização e reterritorialização da população da Luz, consequência do empreendimento da barragem de Alqueva. Devido a esta construção os habitantes são “forçados” a abandonar o seu território. O problema desta deslocação acontece devido aos laços que as populações criam com o espaço. Neste sentido, o território é visto como um factor identitário, onde as populações têm as suas habitações, os seus terrenos e o seu quotidiano. Citando Oliveira (2011:6), “o simples facto de vivermos num determinado espaço, identifica-nos, distingue-nos e pode até condicionar-nos socialmente”.

A construção da barragem altera o sentimento afectivo que une o homem ao seu território – topofilia. Citando Reino (2005: 2), “esta ‘mudança’, não é apenas uma simples mudança física de uma casa para uma nova casa, de um local para um outro local”. Existem aspectos sócio – culturais, simbólicos e identitários que estão inerentes a toda a população residente. A construção da barragem de Alqueva desempenha o papel de pivô em todo este processo de ‘mudança’. Isto significa que a barragem de Alqueva constitui o “detonador” de toda esta problemática. Com o sentimento de pertença destruído, os moradores deixam a antiga aldeia e vão para a nova aldeia da luz que é construída de raiz. Isto acarretou um novo problema, pois contribuiu para a desconfiança, a inveja ou até mesmo cobiça por parte dos habitantes. Este problema de cariz social aconteceu devido à atribuição das novas habitações. Os luzenses com menos posses receberam boas casas, lucrando de certa forma com a barragem, enquanto aqueles que tinham mais rendimentos sentem que não ganharam assim tanto com esta construção. Este problema como outros problemas sociais, como por exemplo o desaparecimento das ruas características da velha aldeia e a transladação do cemitério serão problemas explorados neste artigo.

A nível de metodologia utilizada incide sobre pesquisa bibliográfica, e autores como João Luís Fernandes, Rogério Haesbaert, Ana Oliveira e Clara Saraiva são autores que utilizei com alguma frequência para a construção deste trabalho. O artigo é constituído por quatro importantes pontos: no primeiro ponto trato o conceito de desterritorialização e faço referência no caso particular das barragens, referindo que as barragens eram vistas como desenvolvimento e crescimento económico de um país, mas as políticas administradas eram pouco activas no que tocava a problemas sociais e ambientais; no segundo ponto a barragem de Alqueva, sendo o elemento central; o penúltimo ponto faço referência à desterritorialização da população da aldeia da Luz e o último ponto incide sobre o processo de reterritorialização onde faço alusão a vários problemas sociais devido ao empreendimento da barragem.

  1. 1.      Conceito e geografia da desterritorialização das comunidades humanas – O caso particular das barragens

Explorando a ideia de Oliveira (2011:11), “o ser humano necessita de um território, necessita de um recurso físico, de um espaço onde este mantenha uma relação, sendo por fonte de rendimento, quer sendo pelo sentimento de pertença e / ou segurança que esse espaço transmite”. Por outro lado, o ser humano necessita de se territorializar, de possuir um espaço e de se identificar com o mesmo. Todavia, as adversidades conduzem a riscos na relação entre o homem e o território, contribuindo para uma relação débil, pondo em causa a topofilia, isto é, o sentimento afectivo que une o homem ao seu território. Segundo Tuan (2007: 130), a topofilia “é um neologismo, útil na medida em que pode ser definida de forma ampla para incluir todos os laços emocionais entre os seres humanos e o ambiente físico.” A partir do momento que existe uma quebra entre as relações do homem com o seu território, estamos perante processos de desterritorialização.

Haesbaert et al. (s/d:1), cita Gilles Deleuze que nos elucidam o conceito de desterritorialização, “ (…) construímos um conceito de que gosto muito, o de desterritorialização. (…) precisamos às vezes inventar uma palavra bárbara para dar conta de uma noção com pretensão nova. A noção com pretensão nova é que não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte”.

A quebra topofílica que anteriormente se mencionou pode ocorrer in situ, onde não existe alterações das referências de localização do sujeito por exemplo, a construção de uma via rápida que impede a mobilidade ou a doença e o envelhecimento, quando os serviços de apoio não são satisfatórios. Mas também pode ocorrer ex situ que implica uma deslocação do sujeito entretanto desterritorializado. A desterritorialização ex situ, é a mais frequente e consiste num dos maiores problemas de desenvolvimento da actualidade e também no gerador de vulnerabilidade e pobreza, casos de Guerras civis, crises ambientais lentas – desertificação, ou até catástrofes naturais (naturais ou antrópicas) são alguns dos possíveis exemplos para este tipo de desterritorialização (Fernandes, 2008).

Apesar das consequências positivas que possibilitaram a produção de energia renovável, da disponibilidade de água para a irrigação ou outros consumos onde a carência de água era um problema real, as deslocações de comunidades humanas representam um dos maiores efeitos negativos devido à construção de barragens, tendo um impacte de grande dimensão no ambiente (Fernandes, 2008).

Fernandes (2008: 7) refere que a “construção de barragens, um dos mais importantes meios de artificialização rápida e, na escala temporal da vida humana, irreversível, da superfície terrestre. Provocando mudanças radicais no ambiente, as barragens, sobretudo as de grande dimensão, submergem vales, alteram regimes climáticos, inundam terrenos agrícolas e florestais e podem, como ocorreu em muitos casos, submergir núcleos de povoamento com consequências directas na desterritorialização de comunidades autóctones que, deste modo, se vêm forçadas a abandonar os respectivos territórios pessoais”. Como é o caso da população da aldeia da Luz.

Oliveira (2011: 30), menciona que os “processos de desterritorialização provocados pela construção de barragens, conduzem em alguns casos, à posterior localização dos indivíduos em meios urbanos, contribuindo para o aumento das cidades”. A autora remata com Haesbaert (2004), onde este caracteriza como sendo “aglomerados móveis de exclusão”. Estes aglomerados, criam “processos desequilibrados de urbanização, fazendo aumentar cidades que perderam urbanidade, como ocorre em muitas metrópoles gigantes do globo” (Fernandes, 2008:11).

É certo, que o “modelo de desenvolvimento presente na construção de grandes projectos de desenvolvimento como é o caso das barragens alterou-se. Até determinado período tratava-se de um modelo difusionista, que procurava obter desenvolvimento através de um único ponto – a barragem, hoje em dia, já se assiste a um modelo de desenvolvimento de base mais territorialista” (Oliveira, 2011: 30).

Este modelo, é caracterizado por Fonseca et. al, (s/d: 46), sendo um “processo baseado no aproveitamento dos recursos locais e numa perspectiva de maior voluntarismo e de envolvimento das entidades locais no aproveitamento desses recursos. As actuais políticas de desenvolvimento regional pugnam por estes princípios ao preconizarem modelos inovadores e específicos de rentabilização das potencialidades locais para os territórios mais desvitalizados.”

Citando Fernandes (2008: 8), “o cinema e a literatura têm sido meios de denúncia sobre as construções de barragens que “empurram grupos humanos para o ciclo de pobreza”. Nas obras literárias, Machado (1999), Lobato Faria (2000) ou Edric (2006), envolveram personagens em ambientes de mudança, acompanharam vidas humanas em contextos de enchimento de vales e desaparecimento de territórios de vida, processo também reflectido por Jia Zhang-Ke (2007), no filme Still Life – Natureza Morta, que acompanha as mudanças sociais e paisagísticas que ocorrem com o desaparecimento da cidade chinesa de Fengjie sob as águas da Barragem das Três Gargantas.”

Assim sendo, “os processos de desterritorialização decorrentes da construção de barragens são um factor negativo destes empreendimentos, levando a que algumas populações reivindiquem o seu afecto ao território através da criação de movimentos sociais” (Oliveira, 2011: 32).

  1. 2.      Barragem de Alqueva – apresentação geral do processo

Reino, et. al. (2006:1) referem que “ao longo do século XX, o conceito de desenvolvimento e crescimento económico dos países esteve ligado à construção de grandes barragens, porém as políticas administradas não tinham preocupação com os problemas sociais e ambientais que daí adviessem. O aproveitamento da água, enquanto recurso essencial para a manutenção da vida e sua sustentabilidade, ia ficando um pouco à mercê dos caprichos da Natureza, pelo que a sua utilização, armazenamento e racionalização são prioritários, sobretudo numa região onde os períodos de seca prolongados sempre se fizeram sentir.”

Neste seguimento, Lousada (2010: 21), refere que, “a água é um bem natural precioso por escassa e pela qualidade frequentemente inadequada para o abastecimento humano. Será necessária a construção de barragens para regularizar os cursos de água e optimizar a disponibilidade da mesma.”

A construção da barragem de Alqueva (Imagem 1) proporcionou o nascimento do maior lago artificial da Europa e alterou profundamente a paisagem. Neste seguimento, André (2012:29) elucida-nos “que o primeiro projecto enquanto “Empreendimento de Fins Múltiplos” para a criação de lago artificial data 1957, altura em que foi criado o plano de Rega do Alentejo. Este projecto, realizado sob o governo ditatorial do Estado Novo, teve como principal propósito o combate do êxodo rural, abrindo oportunidade para a “colonização interna”, através do estabelecimento de famílias de agricultores na região e obtenção de mão-de-obra no interior alentejano. Neste contexto social, a revolução de 25 de Abril de 1974 veio alterar de certo modo a visão e o projecto para o mundo rural, dando lugar a uma Reforma Agrária (de 1975) conduzida pelo proletariado rural e apoiada pelo Movimento das Forças Armadas”.

Oliveira (2011: 56), menciona que “em 1975, o governo decidiu avançar com o projecto. No entanto, passados três anos, todas as obras são interrompidas. O empreendimento entrou, numa fase de avaliações e novos estudos. O governo decidiu retomar o projecto em 1993, ano em que é criada a Comissão Instaladora da Empresa de Alqueva (CIEA), que viria a dar lugar à EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva, S.A. Foi então decretado (Decreto-Lei nº 33/95, de 11 de Fevereiro) que o Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva representava uma obra de interesse nacional com os seguintes componentes: Barragem de Alqueva; Barragem de Pedrógão; Sistema de adução de água para consumo público; Rede primária de rega; Redes secundária e terciária de rega.”

Finalmente, em Maio de 1998 começam as primeiras betonagens e somente em 2002 fica concluído o corpo principal da barragem. O seu enchimento data a 8 de Fevereiro de 2002 e no ano de 2004 é inaugurada a central hidroeléctrica. “A 1 de Janeiro de 2010, a albufeira de Alqueva registou o nível de água com a cota 150,17 metros acima do nível do mar, o que corresponde a 91 por cento da sua capacidade máxima; Em 12 de Janeiro o nível de água armazenada atingiu a cota máxima de 152 metros, um metro abaixo do nível de máxima cheia para que albufeira está preparada. Trata-se de um volume de água armazenada de 4.150 hectómetros cúbicos” (André, 2012: 31).

A barragem foi construída na bacia hidrográfica do Rio Guadiana e situada entre os distritos de Évora e Beja (Imagem 2). Actualmente, é o maior lago artificial da Europa. O Grande Lago estende-se por 83 km ao longo dos concelhos de Moura, Mourão, Portel, Reguengos de Monsaraz e Alandroal (André, 2012: 31).

Segundo MELO (2009: 1), “Alqueva é um dos maiores empreendimentos já realizados em Portugal. É certamente o mais polémico, o mais emblemático deste estilo de desenvolvimento, o causador de maiores impactes ambientais e de mais medidas para a sua mitigação, num século XX recheado de obras públicas mais ou menos problemáticas.”

  1. 3.      Aldeia da Luz – Processo de desterritorialização

A aldeia da Luz localiza-se na freguesia da Luz do concelho de Mourão, pertencente è NUT II Alentejo, e sub – região Alentejo Central.

Desde o primeiro projecto para a construção da barragem em 1957 a submersão da aldeia da Luz era uma possibilidade. Oliveira (2011:91) salienta que “no decorrer dos anos, foram equacionadas várias opções para o empreendimento: encher até à cota 152 (sendo a actual) ou à cota 138, ou ainda a construção de diques em redor da aldeia para a sua protecção. Optando-se pelo enchimento da albufeira até à cota 152, elaboraram três hipóteses: a construção de uma aldeia de raiz nos montes de Juliôa dos Pássaros de Cima, ou a deslocalização para as imediações de Mourão ou então a construção de diques. A hipótese que prevaleceu, resultado de um inquérito informal feito à população pela Junta de Freguesia da Luz foi a deslocação da população para Montes da Juliôa e dos Pássaros de cima, a cerca de 2kms da aldeia submersa.”

“A aldeia da luz submergida pelo empreendimento da barragem, apresentava cerca de 370 habitantes à data da remoção do velho aglomerado” (Fernandes, 2008: 17) e em 2011 a população existente na nova aldeia era de 290 habitantes (INE), caracterizada por uma população muito envelhecida.

O que teve mais significado para a população que se viu obrigada a abandonar o seu território foi a transladação dos corpos do cemitério da antiga aldeia para a nova aldeia.

A população da aldeia da luz “decidiu que a mudança dos seus mortos deveria anteceder a dos vivos – “não abandonariam as suas alminhas”, o cemitério foi integralmente trasladado em Julho de 2002. No dia 22 de Junho de 2002 houve uma missa na Igreja matriz, seguida por uma cerimónia religiosa no velho cemitério, presidida pelo bispo auxiliar de Évora. (…) A trasladação iniciou-se no dia 28 de Junho e durou treze dias; foram mudados uma média de doze corpos por dia. Os féretros saíam em carro fúnebre do velho cemitério e seguiam por uma estrada exterior ao núcleo populacional, de modo a evitar o trauma colectivo que constituiria o desfile diário de doze a vinte funerais pelo meio da aldeia” (Saraiva, 2003: 110).

O novo cemitério teve em conta as características da antiga necrópole. Os “ocos” são uma característica daquela área. São sepulturas exteriores, os corpos não têm contacto com a terra, logo existe um processo de decomposição aeróbio.

Citando Saraiva (2003: 112), “mexer na comunidade dos mortos foi também tocar na memória sagrada de uma aldeia, que ultrapassou os restos mortais individualmente identificados que foram trasladados. Este processo desencadeou uma catarse colectiva e um sentimento de solidariedade derivada do sentimento da união na dor. Com os seus mortos no novo espaço só restava aos luzenses aceitarem com resignação que os vivos se mudassem também.”

  1. 4.      (Nova) aldeia da Luz – processo de reterritorialização

Para Leite (2009: 4), o conceito de reterritorialização “consiste no processo de sedentarização dos sujeitos em mobilidade, que passa pela ocupação de um espaço – físico, geográfico, mas também construído social e subjectivamente – a partir do qual os sujeitos sediam a sua vida, reconstroem as suas identidades, as suas redes sociais, as suas actividades – profissionais, religiosas, artísticas, sociais, ou outras”.

Seguindo a ideia de Fernandes (2008: 18), “em muitos casos, sobretudo em regiões de Desenvolvimento Humano médio mais baixo, as transformações nos espaços rurais, pelas barragens ou outros projectos, conduzem a uma urbanização repentina e pouco planeada, forçando a um difícil processo de reterritorialização agora em espaços urbanos pouco preparados para o efeito”. Fernandes (2008: 19), cita Ryszard Kapuscinski (2000: 309) que descreve assim este processo: “A guerra e a seca levam à desertificação das aldeias e empurraram os seus habitantes para as cidades. Este foi um processo que se arrastou durante anos, envolveu milhões, dezenas de milhões de pessoas. Em Angola e no Sudão, na Somália e no Chade, na verdade um pouco por toda a parte. Instalemo-nos na cidade! Era este o grito de esperança e salvação, mas também de desespero. É que, nas cidades, estas pessoas não tinham ninguém à sua espera, ninguém os tinha chamado. Tinham ido lá parar movidos pelo medo, mobilizando as últimas forças, à procura de abrigo, sobrevivência. (…) Não lhes serve de nada ir para a cidade e, depois de irem, já não podem voltar à aldeia. Não têm nada que possam cultivar, não têm gado, não podem produzir absolutamente nada. Não têm morada, nem dinheiro, nem documentos. Perderam as suas casas, muitos perderam também a família. Não têm ninguém a quem se dirigir para protestar, não têm ninguém de quem possam esperar o que quer que seja”.

A casa dita tradicional da antiga aldeia da Luz foi substituída por materiais e técnicas de construção mais recentes. É notório que em qualquer localidade, um indivíduo que tenha mais posses económicas possuam melhores habitações. Todavia, a construção da nova Luz albergou inveja e desconfiança entre os luzenses uma vez que todos os habitantes foram indemnizados e a população com poucas posses acabou por beneficiar com esta mudança.

Citando Oliveira (2011:113), “a estandardização da habitação e a semelhança do exterior das diferentes casas vieram diminuir de forma muito significativa as diferenças sociais e económicas que se encontravam patentes na antiga aldeia.”

A morfologia das ruas alterou a vida social. A antiga aldeia da Luz era uma aldeia caracterizada pela não existência de passeios e pelas estradas serem estreitas. Na nova aldeia, os passeios e as ruas obedecem a normas que afastam os habitantes dos seus vizinhos, dificultando a comunicação.

Um costume bastante vincado na população de algumas aldeias alentejanas, entre as quais a aldeia da Luz, consiste em se sentarem nos portados ou em cadeiras em frente às portas de suas casas nas noites quentes de verão para falarem com os seus vizinhos. Com o alargamento dos passeios isso tornou-se difícil de acontecer. As ruas estreitas e desordenadas desapareceram dando lugar a uma nova aldeia mais homogeneizada e com uma arquitectura mais moderna. Tal pode ser observado na Imagem 3. 

Oliveira (2011:119) reforça a ideia dos luzenses em relação à antiga aldeia: “a antiga aldeia “era mais juntinha” e continha inúmeros equipamentos e infra – estruturas comunitárias, como por exemplo o tanque comunitário. Existia um outro tipo de convívio “havia sempre gente na rua””. Durante a viagem de campo evidenciou-se a ausência de população, os poucos cafés que havia estavam fechados – sendo fortes locais para a socialização, e aos meus olhos era uma aldeia “construída”, transmitia a ideia de que faltava algo e relativamente à semelhança com a antiga aldeia é muito pouca.

Na velha aldeia havia fontanários, tendo um deles sido transladado para a nova aldeia (Imagem 4). É necessário ter atenção de como uma fonte é um símbolo forte numa área onde a escassez de água é dominante.

Outra transladação diz respeito à igreja matriz que remontava ao século XV (Imagem 5).

Também foi possível ver o Museu da Luz, sendo uma infra-estrutura da nova aldeia da Luz, como se pode ver na Imagem 6. O museu foi fundado em 2003, e o seu principal objectivo resume-se de uma certa forma, em preservar as memórias da velha aldeia e das actividades que nela predominavam.

Citando Saraiva (2003: 129) “se o ano de 2002 foi o ano em que tudo se fazia “pela última vez na velha aldeia”, o ano de 2003 era o “ano em que tudo se faz tudo pela primeira vez na nova aldeia”.

O processo de territorialização é um processo complexo – existe uma perda, tanto material, como simbólico, como sentimental. Essa “quebra” de sentimento perante um lugar leva a que não se sintam “acolhidos” no novo espaço. Não existe sentimento, não existe uma referência, não existe o território que consideravam ser a sua casa. O problema de não se sentirem parte integrante do novo território foi evidenciada em grande parte da bibliografia mencionada e Citando Saraiva (2009: 129), “a aldeia nova não é aldeia – não tem alma”, resta esperar que, (…) os luzenses refaçam as suas almas e encontrem também o seu sossego de vida à medida que vão (re) criando a alma da sua nova aldeia”. 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como foi notório, a desterritorialização não é um processo novo, porém continua a deixar marcas na população que se vê obrigada a abandonar o seu território. O processo de desterritorialização tem sempre o processo de reterritorialização associado.

Quando existe a “mudança” de um território para outro acaba por se perder a identidade que o homem tinha em relação ao lugar. No caso da aldeia da Luz, a construção da barragem levou a desterritorialização dos luzenses. No geral, a construção de barragens vai ter um impacto muito forte na paisagem, sobretudo a montante destas provocando inundações e submersões do território. No caso da barragem de Alqueva proporcionou o nascimento do maior lago artificial da Europa e também não é possível imaginar o Alentejo do futuro sem ter em conta esta nova morfologia. É claro que nem tudo foi negativo, a construção da barragem foi um dos maiores empreendimentos de Portugal, mitigou os problemas da escassez de água e gerou turismo.

Todavia, como foi dito no artigo, a mudança para a nova aldeia trouxe conflitos, discussões e desconfianças, motivadas pelas condições das novas casas. A população que já tinha boas casas antes de ir para a nova aldeia sentiram que tinha ganho pouco com a “mudança” para a nova Luz.

Também o facto da morfologia da nova Luz ter sofrido alterações veio reduzir a densidade de relações sociais. O costume de se sentarem à porta durante as noites quentes de Verão acabou por mudar, as ruas estão mais largas e os vizinhos mais afastados, contribuindo para a perda da comunicação e da relação entre eles.

Penso que o desagrado por irem para outro espaço e a transladação do cemitério foram os aspectos que uniram a população num determinado momento.

Como refere Oliveira (2011: 141), “as pessoas não ganham vínculo com um novo território só porque são forçadas a residir nele. A relação de topofilia vai muito para além de se habitar em determinado lugar. Topofilia é o vínculo, o laço, o apego, o afecto que temos para com determinado território, diríamos que, sobretudo com o simbólico, ‘jogando’ mais com a parte emocional do que com a racional, a importância de sentirmos uma segurança extrema”.

Deste modo, o apego, o sentimento de pertença a um determinado território não se transfere para outro. A topofilia mantém-se e é por isso que o processo de desterritorialização/reterritorialização é tão complexo.

Hoje em dia, a velha aldeia está submersa e algumas das suas recordações podem ser vistas no Museu da Luz, da nova aldeia ou então contadas pelos luzenses. Neste sentido, e em modo conclusivo, “a população da luz viveu, sobretudo na última década, perante a irreversibilidade e inevitabilidade de um processo, a sensação de perda de um passado que o futuro, se existir, só existirá sob a representação de memórias” (Reino, 2005: 1).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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Lousada, S.(2010): “Impactes das Áreas de Rega e da Barragem do Alqueva nas Temperaturas Regionais: Evidências no Sul da Península Ibérica”. Universidade do Minho.

Melo, J.(2009): “Alqueva: alegrias e frustrações da mais emblemática obra pública portuguesa do séc. XX”. In: ARHT (Ed), Os Planos de Ordenamento da Orla Costeira: Balanço e Reflexões, pp. 89-93.

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Reino, J.; Coutinho, L.; Antunes, M.(2006): “Alqueva e a aldeia da Luz: que futuro?”. CEPAD – Centro de Estudos da População, Ambiente e Desenvolvimento. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa.

Saraiva, C.(2003): “Aldeia da luz: entre dois solstícios, a etnografia das continuidades e mudanças”. Etnográfica, Vol. VII, pp.105-130.

Tuan, Y. (2007): “Un estudio de las percepciones, actitudes y valores sobre el entorno”. Traducción de Flor Durán de Zapata, Melusina.

Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Abrantes, Aline: "O grande lago artificial e as memórias de uma aldeia submersa – Do processo de desterritorialização ao processo de reterritorialização: o caso da Aldeia da Luz (Alentejo, Portugal)" en Revista Caribeña de Ciencias Sociales, febrero 2015, en http://caribeña.eumed.net/aldeia-submersa/

Revista Caribeña de Ciencias Sociales es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.