AS MANIFESTAÇÕES DA CAPOEIRA ANGOLA NA PRAÇA CÍVICA DE GOIÂNIA EM 1970

Resumo
Este artigo tem como escopo analisar os lugares da cidade na constituição da memória coletiva dos sujeitos sociais. Para compreensão dessa relação elegemos as apresentações de Mestre Sabú com seu grupo de Capoeira Angola na Praça Cívica em Goiânia nos anos de 1970.
Palavras-chave: Memória Coletiva; Cidade; Capoeira Angola.

Introdução

 

Pedras, lugares, homens e mulheres compõem partes dialéticas de um organismo vivo e em constante desenvolvimento que podemos denominar de Cidade. Assim, para que esse “organismo” se desenvolva em um ritmo que não seja abalado pelas alterações urbanas, provocadas pelos intensos investimentos na área urbana e imobiliária, é necessário que seus lugares de sociabilidades não sejam esquecidos. As cidades representam práticas sociais e valores históricos das pessoas que nela habitam, por ela passam e em um movimento dialético constroem e se relacionam com os lugares da mesma.  Pensar, os lugares da cidade é compreender que eles não estão justapostos uns aos outros como um mosaico, mas, como nos aponta Arantes (2000, p. 106) “eles se superpõem e, entrecruzando-se de modo complexo, formam zonas simbólicas de transição”. Por conseguinte, essas “zonas simbólicas de transição” formam espaços comuns que são cotidianamente trilhados, aproximam ou afastam as relações sociais entre pessoas e grupos sociais. Nesse processo, ruas, praças e tantos outros lugares da cidade passam a fazer parte das experiências sociais e de suas lembranças compartilhadas.

Destarte, ao estabelecer as relações sociais com os lugares da cidade, essas relações não são apagadas pelos grupos com o transcorrer do tempo. Halbwachs (1990, p. 133) é categórico ao afirmar que “o lugar ocupado por um grupo não é como um quadro negro sobre o qual escrevemos, depois apagamos os números e figuras”, pois “o lugar recebe a marca do grupo e vice-versa”. Portanto, os lugares evocam lembranças de um tempo no qual experiências sociais foram estabelecidas. Como exemplo, podemos evocar as manifestações culturais e corporais presentes nas ruas e praças do Brasil, que se apropriando dos espaços da cidade reinventam novas possibilidades de sociabilidades. Essas manifestações, além de consolidar as práticas dos grupos sociais que delas fazem parte, acabam se tornando referência, uma marca do lugar, tal como aconteceu com a prática da capoeira na Bahia nas primeiras décadas do século XX, durante as ‘festas de largo’.

 

As chamadas ‘festas de largo’ eram um dos espaços onde a capoeira baiana se mostrava e desenvolvia. Eram os momentos em que os grandes capoeiristas da época exibiam seus dotes e sua destreza, e também, não raro, onde aconteciam confusões, brigas, desordens e perseguições por parte da polícia. Mas, sem dúvida, as festas de largo foram espaços importantes de consolidação e de popularização da capoeira baiana, bem como, de valorização e reconhecimento público de grandes nomes da capoeira que passaram a fazer parte do imaginário popular na cidade de Salvador. (ABIB, 2009, p. 27).

 

É nos festejos populares ocorridos nas praças e ruas, que os praticantes da capoeira marcaram seu espaço junto com as demais manifestações populares na cidade de Salvador, de modo que o lugar recebeu a marca do grupo, mas também o grupo recebeu a marca do lugar, se tornando referência e exemplo a ser seguido por outras gerações em outras cidades.  Este é apenas um dos inúmeros exemplos que poderiam ser relacionados, para tornar perceptível a apropriação que os sujeitos sociais fazem dos lugares da cidade. Nesta relação, histórias e tradições vão sendo construídas, de tal modo que a história de cada indivíduo na cidade vai sendo formada a partir das várias “situações que ele enfrentou em seus territórios, e é a ação desse sujeito nesses espaços que faz de um episódio banal uma situação, para ele, de reinvenção de suas tradições.”. (ROCHA; ECKERT, 2005, p. 30). Notadamente, nesses festejos populares da Bahia no qual a capoeira estava inserida, há um legado, uma tradição que é rememorada em todas as manifestações de capoeira do Brasil e do mundo, trata-se da roda de capoeira. Segundo Abib (2009, p. 28) a roda de capoeira “foi uma construção social ocorrida possivelmente no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, na Bahia, a principalmente partir das festas de largo”. E, mesmo a capoeira tendo passado por intensas transformações após esse período, essa é uma tradição que perdura até hoje.

Nesse sentido, os sujeitos e suas práticas pela cidade são marcados pelas polissemias de suas ações, bem como, pelas produções de novas sociabilidades. Essas ações são asseguradas pela convivência dialética entre os antigos e novos valores, velhas e novas práticas, através da Memória. Assim, temos na Memória um dos caminhos profícuos para assegurar tal convivência. A Memória tem um importante papel no processo histórico contribuindo efetivamente para que essas tradições atravessem o tempo, na afirmação de identidades e valores, uma vez que representa o universo das pessoas, imagens e lugares nos quais as relações sociais se efetivaram.

Como supracitado, os lugares sociais enquanto componentes da cidade evocam significados e lembranças de outrora, que ativam a memória. Ora, em todas as cidades é possível encontrar exemplos desses locais como: praças, monumentos, museus, casas antigas e tantos outros locais tombados ou não como Patrimônio Material, são lugares de memória que evocam um tempo passado. Sobre os Lugares de Memória, Nora (1981, p. 21) esclarece que “só é lugar de memória se a imaginação o investe de uma aura simbólica”, são lugares que possuem uma estrutura que nos acolhe e nos fazem relembrar e ter o sentimento de pertencimento àquele lugar. É onde nossa identidade está, por isso, muitos grupos locais resistem às transformações físicas e essa resistência nos permite uma clara percepção do impacto que as imagens espaciais exercem sobre a memória coletiva de um grupo. E quando esse grupo mantém suas práticas e seus hábitos ligados a um determinado lugar “não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores.” (HALBWACHS, 1990, p. 136).

Deste modo é perceptível a relevância de se pensar os espaços e lugares da cidade como elementos que tem uma dimensão não só material, mas histórica, cultural e simbólica. Segundo Halbwachs (1990, p. 143):

 

Assim, não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial. Ora, o espaço é uma realidade que dura: nossas impressões se sucedem uma à outra, nada permanece em nosso espírito, e não seria possível compreender que pudéssemos recuperar o passado, se ele não conservasse, com efeito, no meio material que nos cerca.

 

É nesse quadro espacial que além de fixarmos nossos pensamentos, construímos toda uma aura simbólica. Sendo espaços públicos ou privados, eles “fornecem o suporte material de um investimento simbólico referido ao cotidiano afetivamente significativo de seus grupos sociais” (ROCHA; ECKERT, 2005, pp. 87-88). Todavia, nossos sentidos humanos, voluntariamente ou involuntariamente, em determinadas situações irão nos remeter a essa produção simbólica, que fez e faz parte do nosso processo de sociabilidade, e que nos fará rememorar tal momento. Cabe dizer que:

 

[...] O que os faz lugares de memória é aquilo pelo que, exatamente, eles escapam da história. Templum: recorte no indeterminado do profano – espaço ou tempo, tempo e espaço – de um círculo no interior do qual tudo conta, tudo simboliza, tudo significa. Nesse sentido, o lugar de memória é um lugar duplo, um lugar de excesso, fechado sobre si mesmo, fechado sobre sua identidade; e recolhido sobre seu nome, mas constantemente aberto sobre a extensão de suas significações. (NORA, 1981, p. 27).

 

Portanto, estudos que evocam os lugares de memória na cidade, tem sua relevância ao desvelar à sociedade os significados simbólicos e sociais desses lugares, o que na verdade contribui duplamente, para uma memória da cidade e para uma memória do indivíduo, dos grupos sociais. E, por vezes, nos possibilitam o conhecimento sobre sua história social e sua rede de significações que se manifestam no presente.

Para refletir tais relações na construção social desses lugares de memória, analisaremos neste artigo a relevância dos lugares da cidade na constituição da memória coletiva dos sujeitos sociais. O lugar escolhido para compreender o objetivo proposto é a Praça Cívica, na cidade de Goiânia em Goiás, nos anos de 1970, os sujeitos sociais são os praticantes de capoeira da cidade, representados na figura de Mestre Sabú e suas apresentações com seu grupo de Capoeira Angola na referida praça em 1970. A escolha desses sujeitos sociais se deve à nossa aproximação com o tema, enquanto praticante e pesquisadora, principalmente, no que se refere à pesquisa sobre o trabalho Mestre Sabú com a Capoeira Angola em Goiânia.

A Praça Cívica, marco zero da cidade, é reconhecida como um dos importantes lugares de memória, que foi apropriado pelo grupo de Mestre Sabú e suas rodas de capoeira, bem como, em seguida pelos capoeiristas que não faziam parte do seu grupo. Em linhas gerais é a partir da Feira Hippie realizada na referida praça, que a capoeira começa a fazer parte do imaginário popular e a construir sua identidade, seu lugar de pertencimento, um dos seus lugares de memória, movimentando e marcando os anos de 1970 na cidade.

Lugar de Memória: A Capoeira Angola em Goiânia seus primeiros “gingados” até a Praça Cívica em 1970

 

Os Lugares de Memória representam para os sujeitos sociais, lugares onde sua identidade está presente pela cidade. É lócus que sua memória irá sempre relembrar para compor os registros históricos do seu passado.  Para Arantes (2000, p. 106) é no cotidiano que os habitantes da cidade ao se deslocarem e se situarem no espaço urbano, vão construindo “coletivamente as fronteiras simbólicas que separam, aproximam, nivelam, hierarquizam ou, numa palavra, ordenam as categorias e grupos sociais em suas mútuas relações”, nesse sentido é que ruas, praças e monumentos vão fazendo parte das experiências sociais destes grupos, trazendo significações e lembranças compartilhadas. Ao propomos um recorte de análise a partir das apresentações de Mestre Sabú com seu grupo de Capoeira Angola na Praça Cívica de Goiânia em 1970, nossa intenção é desvelar o quanto os Lugares de Memória podem ser representativos constituição da memória coletiva e da história social dos indivíduos e grupos de uma cidade. Segundo Brito (2009):

 

A história da capoeira de Goiás ficaria incompleta se deixássemos de falar das Rodas de Capoeira da Feira Hippie na Praça Cívica. A Praça Cívica nos anos 70, juntamente com o Lago das Rosas, era o cartão postal de Goiânia. O lugar mais visitado da cidade. Seu monumento às três raças, o Palácio do Governador, o Museu Zoroastro Artiaga e a belíssima fonte Luminosa eram suas principais atrações. Sua beleza e excelente localização obrigavam a maioria dos transeuntes a passar por ela quando se dirigiam ao centro da cidade. (p. 57. Grifos nossos).

 

Assim, podemos analisar o quanto a cidade de Goiânia, capital jovial de Goiás em 1970 com pouco mais de trinta anos, foi planejada para ser uma cidade confortável que proporcionasse aos seus habitantes espaços públicos de sociabilidade e convivência, “Goiânia expressava a modernidade e o progresso, e amalgamava o urbano e o rural” (CHAUL, 2010, p. 256). E a Praça Cívica representava em suas paisagens o reflexo de uma cidade moderna do século XX, onde as principais avenidas convergem para a praça, o marco zero da cidade planejada. Seu nome oficial é Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, o local tem a função administrativa da cidade, assim como tem representativa importância para a memória da cidade, sendo lócus de objetos e monumentos importantes, conforme Brito (2009) relatou ela é composta pelo seu Monumento às três raças, o Palácio do Governador, o Museu Zoroastro Artiaga e a fonte Luminosa (tombados como Patrimônio Material pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 2003). Não é por acaso que esses lugares públicos estão aglomerados no centro da cidade e, é a este centro que todos os seus habitantes se deslocam para contemplar esses espaços e estabelecerem suas relações sociais.

Dito isto, não podemos deixar de ressaltar como ocorreu a inserção da Capoeira Angola, nesta cidade jovial e moderna. Para Vieira (1973) a entrada da Capoeira em Goiás aconteceu de forma privilegiada, uma vez que o Estado demonstrava-se aberto às manifestações culturais vindas de outras partes do país, tornando a assimilação da Capoeira pacífica entre nós. Contudo, Brito (2009) e Tucunduva (2009), nos apresentam que apesar desta “abertura”, ela foi permeada por preconceitos e discriminações, principalmente no que se refere à Capoeira Angola. Esta prática cultural tem início na década de 1960 na sociedade goianiense, pelo trabalho de Manoel Pio Sales, mas todos o conhecem e o chamam pelo seu apelido – Mestre Sabú, goiano nascido na cidade de Goiás, ele teve contato com a Capoeira Angola de Mestre Caiçara (renomado capoeirista baiano) ainda criança quando morou na Bahia, junto com um tio. Na maioridade, retorna da Bahia e vê a oportunidade de ensinar a arte da Capoeira Angola aos seus conterrâneos. Nessa época pouco ou quase nada se sabia sobre capoeira, e seus vizinhos da Vila Redenção em Goiânia estranharam essa nova prática advinda da Bahia com gestos, movimentos e sons que nunca tinham ouvido antes, chegando a suspeitar que se fosse um “terreiro de macumba”. Estigmatizada a prática de capoeira de Mestre Sabú, foi alvo de intolerância e discriminação:

 

Mestre Sabú conta que seu maior inimigo, no início, era o preconceito. Segundo ele, nas apresentações, era ovacionado, aplaudido de pé, mas no dia a dia, na rua, e pelos vizinhos, era visto como uma pessoa não quista, pois o ritmo dos instrumentos os incomodava e o tinham como macumbeiro. Frequentemente os vizinhos chamavam a polícia para acabar com a sua roda na academia. A estratégia que usou contra o preconceito foi divulgar ainda mais a capoeira pela cidade. (BRITO, 2009, p. 33)

 

Mesmo não sendo mais perseguida pela polícia, deixando de ser coisa de “malandro”, no imaginário popular a capoeira causou estranhamento, principalmente em se tratando de Capoeira Angola, que tem alguns instrumentos que são comuns na religião afro-brasileira denominada de Candomblé, como o Atabaque e o Agogô. Essa semelhança ativa a percepção das pessoas que por terem uma (in) formação diferente, podem concebê-las como práticas iguais. Além disto, também não podemos ignorar o preconceito racial e social, ainda presentes na sociedade, que abomina práticas que fogem dos cânones hegemônicos. Isso é verificável na e pela experiência, dos sujeitos sociais que sentem na pele o preconceito velado, aos moldes do mito da democracia racial. Conforme nos afirma Reis (2010, p. 59) a Capoeira Angola passou pela desvalorização de sua prática nas décadas de 1960 e 1970, sendo este um momento de auge para a Capoeira Regional, que conquistava o mercado das artes marciais. E, somente ao longo da década de 1980 e 1990, que a Capoeira Angola é “revalorizada como “depositária da tradição”, no bojo da valorização da negritude e do crescimento da “consciência negra”.”.

Enquanto isso, em Goiânia na década de 1960, Mestre Sabú, insiste em contornar o processo de desvalorização vivido na época e não perde o interesse de divulgação, em suas palavras reafirma sua trajetória de resistência cultural: “[...] eu mantive a capoeira viva até ter a aceitação pela sociedade, pois não tinha aceitação infelizmente.” (TUCUNDUVA, 2009, p. 31).

 

E na Praça Cívica a Roda de Capoeira começava…

 

A Praça Cívica, centro administrativo da cidade, também é lugar de protestos, manifestações, lugar centralizado onde o “poder” está presente, visível e “aberto” a toda população. Assim, o espaço para a Feira Hippie na praça foi conquistado com protestos pelos artesões da cidade, a partir do movimento de apropriação da Praça Cívica pelos Hippies em 1970, chamando a atenção do poder público e da população. Segundo CARVALHO, WENDLAND e MOTA (2007):

 

A Feira Hippie de Goiânia, segundo Dossiê de Goiás (SILVA, 1996) teve início na década de 1970, com a exposição de artesanatos feitos por hippies que se reuniam aos domingos, no espaço onde hoje funciona o Parque Mutirama. Esse grupo foi crescendo e ganhando adesão de outros artesãos que aproveitaram a idéia (op. cit.). Logo depois, para a implantação do Parque Mutirama, a administração municipal mudou os hippies para a Praça Universitária. A transferência não agradou aos vendedores ambulantes, uma vez que a nova localização era de difícil acesso para os consumidores. Assim, “os hippies decidiram chamar a atenção das autoridades e montaram a feira na Praça Cívica, ao lado da prefeitura e do Palácio das Esmeraldas” (op. cit.), no centro da cidade. Nesse novo local, a feira passou a adquirir novos integrantes e por lá permaneceu até o final da década de 1970. (pp. 31-32).

 

Assim, Mestre Sabú se uniu a esse grupo de artesão da cidade, de modo a marcá-lo na história. Além de ensinar capoeira no seu Terreiro de Capoeira Angola na Vila Redenção, ele também fabricava neste mesmo lugar instrumentos, como: atabaque, agogô, afoxé, nazal, reco-reco, maracá, tamborim, surdo, cuíca, tumbadôra, timbal, berimbau, ganzá, sendo uma fonte de sobrevivência para se dedicar exclusivamente à Capoeira. Todos os domingos ele participava da famosa Feira Hippie que acontecia na Praça Cívica. Logo, ele não somente se apresentava como também aproveitava para expor e vender os instrumentos que fabricava em sua escola de capoeira. Vieira (1973, p. 20) retrata o início dos trabalhos de Mestre Sabú com a capoeira na feira: “no centro cívico da cidade, já tem consagrada como ponto de atração a roda de capoeira de mestre Sabú, ao seu lado, um grupo-mirim que se apresenta e o auxilia na venda de peças artesanais como berimbau, pandeiro, atabaque e caxixi.”.

Vieira (1973) relatou que aos domingos era muito comum um grande número de pessoas irem à feira para passear, consumir produtos artesanais, divertir com os amigos, fugindo da rotina do dia-a-dia para ver os shows e a capoeira que era apresentada por Mestre Sabú. Brito (2009), reforça essa representação dos domingos na Praça Cívica:

 

Domingo era o dia mais importante da Praça, dia da famosa FEIRA HIPPIE, pastelzinho frito na hora no caldo de cana, jarros com flores, colchas e lençóis detalhadamente bordados, todo tipo de material artesanal. No coreto, músicos se apresentando, e ali entre os transeuntes, encontrava-se a exposição de artesanato do Mestre Sabú, uma verdadeira galeria de cultura africana em espaço aberto. Eram expostos instrumentos como: Berimbau, Atabaque, Pandeiro, Ganzá, Reco-reco, Agogô e muitos outros. (BRITO, 2009, p. 58).

 

A partir das afirmações de Vieira (1973) e Brito (2009), identificamos uma época na qual a Praça Cívica durante a década de 1970 era o local mais movimentado da cidade, lugar que com toda certeza está marcado na memória de muitos goianienses, entre população, feirantes e capoeiristas que por lá passaram seja: buscando um lugar para o lazer e descontração ou um lugar que lhe propiciasse divulgação de trabalho e lhe proporcionasse renda econômica para sobreviver e sustentar sua arte, seu artesanato. Toda essa aura simbólica evidencia esse lugar de memória, onde intensas experiências sociais foram estabelecidas. Sobre os feitos de Mestre Sabú, há relatos que eles iam além das apresentações de Capoeira Angola:

 

Um jornal da cidade contou o fato assim: “[...] Era impossível não parar para olhar, muitas pessoas iam ali somente para ver esta roda. Mestre Sabú era uma atração a parte: cantava, jogava e ocasionalmente se apresentava com seu monociclo. Como artista eclético que era, era um show”. (Jornal não identificado). (BRITO, 2009, p. 58)

 

Como citado no trecho acima Mestre Sabú era um artista eclético e a Praça Cívica era o palco para o seu show. Neste palco protagonizou vários eventos da cultura afro-brasileira, apresentando a Capoeira Angola, Maculelê, Samba de Roda, Puxada de Rede e Dança do Tapuio, mostrando para a sociedade os valores de uma cultura popular que estava ao alcance de todos (TUCUNDUVA, 2009). Foram muitos anos de trabalho nesta feira, era dali que saia o sustento de sua família e de sua arte, foi ali também que muitos jovens tiveram seu primeiro contato com a Capoeira Angola e posteriormente puderam praticá-la com este mestre.

E na memória de Mestre Sabú, quais suas lembranças sobre está época?

 

Ao ser questionado sobre os momentos marcantes de sua trajetória e de sua própria vida, Mestre Sabú sempre busca na memória as recordações que guarda de outrora: “Oh minha filha, das grandes rodas. Eu abri roda em 1970 em Brasília na Torre TV, eu fui o primeiro mestre a abrir roda ali, me dá saudade. É quase trinta anos de roda de frente o palácio das esmeraldas todo domingo mais de duas mil pessoas assistindo, tem filmagem, aí dá saudade. Eu que comecei essa feira Hippie, foi eu quem fechava ali para o trânsito não passar. O tempo que era só a arte tudo feito a mão, hoje é feito tudo industrializado, mais para ganhar dinheiro, não tem cultura nenhuma.” (TUCUNDUVA, 2009, p. 48).

 

Diante tamanha relevância da memória de Mestre Sabú, é possível identificar que além de um artista eclético, ele também era dinâmico e tinha outros lugares nos quais levava consigo seus artesanatos e a divulgação da Capoeira Angola, como a Torre da TV em Brasília. A memória que ele tem da Feira Hippie, é a memória não só de alguém que se apresentava por lá e que de lá, tirava o seu sustento, mas de quem também ajudou a construir a feira preparando o lugar para a recepção da população. Na sua fala ainda há uma análise ímpar, que desvela o quanto a relações econômicas modificaram o comércio da Feira Hippie, atualmente localizada em outro local da cidade: a Praça do Trabalhador. Uma feira com sua própria bagagem histórica, maior feira ao ar livre do Brasil e da América Latina, que por si, pode embasar um estudo a parte, e que com o passar dos anos foi perdendo espaço de divulgação dos trabalhos dos artesões de Goiânia e dando lugar a comercialização da indústria têxtil.

Nesse exemplo, elucida-se o quanto a ação do tempo e do homem pode modificar espaços e lugares, transformar as relações sociais e econômicas, porém, como já afirmou Halbwachs (1990, p. 136) “não é tão fácil modificar as relações que são estabelecidas entre as pedras e os homens”, as pedras podem se desconfigurar e não resistir, mas os indivíduos e grupos permanecerão firmes e resistentes. Os lugares evocam lembranças, mas as lembranças também evocam os lugares e as relações sociais que ali foram estabelecidas. A Praça Cívica de Goiânia é esse lugar de memória, o lugar para Mestre Sabú, para outros capoeiristas e para a sociedade goianiense. Principalmente, no que se refere a Mestre Sabú e seu grupo de Capoeira Angola, o qual pode construir um sentimento de pertencimento à cidade, sua identidade goianiense. E, é nesta resistência cultural, nessa luta social, que se encontram suas memórias, tradições, identidades e significados que lhe são caros, pois, é daí que surge a força e a experiência para seguir adiante trabalhando e divulgando a capoeira pela cidade e além da cidade.

 

Considerações Finais

 

A cidade representa um conjunto de práticas sociais e valores históricos construídos cotidianamente por seus habitantes, formando vários lugares de memória, que marcam grupos e vice-versa. Os lugares de memória nos permitem um conhecimento ampliado, um conhecimento que perpassa pela dinâmica das relações sociais e nos permitem compreender os significados simbólicos e sociais desses lugares para a cidade e para os grupos e indivíduos. Todavia, alguns destes lugares só podem ser plenamente reconhecidos quando temos contato com os relatos orais, que nos permitem conhecer os desafios e possibilidades da vida cotidiana do homem simples, ou homem do “povo” como Mestre Sabú.

Em Goiânia, a capoeira passa a fazer parte do imaginário popular e a construir sua identidade e seu sentimento pertencimento à cidade, a partir das apresentações de Mestre Sabú, que além da Capoeira Angola, compartilhava com a sociedade outras tantas atrações que faziam parte do domingo da Feira Hippie na Praça Cívica durante os anos de 1970. Identificamos a Praça Cívica enquanto um lugar de memória, extremamente significativo para a Capoeira Angola na década de 1970, um lugar de sociabilidades, lazer e cultura, conquista iniciada por protestos dos artesãos da cidade. A Praça Cívica, um lugar de memória representativo, foi palco da famosa Feira Hippie que acontecia na praça aos domingos, e esse foi o movimento condutor que levou Mestre Sabú a buscar neste espaço a divulgação da capoeira na cidade, o reconhecimento e a superação da discriminação social que sofria, ao passo que pode contribuir para que as pessoas conhecessem, admirassem e respeitassem sua prática.

Este artigo percorreu minimamente uma parte dessa trajetória, a fim de socializar uma análise preliminar de pesquisa que está sendo desenvolvida na linha de pesquisa Cultura, Representações e Práticas Simbólicas do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás, sobre Mestre Sabú e a Capoeira Angola em Goiânia. Coube a este texto apresentar o quão é forte a imbricação entre memória, lugar e a trajetórias dos sujeitos e grupos sociais. Embora, o tempo tenha passado, o local tenha sofrido algumas transformações e a feira não esteja mais lá, a Praça Cívica, fez parte da construção histórico-social e cultural da cidade, de Mestre Sabú e dos capoeiristas, resistindo na memória, como um importante elemento para afirmação e constituição de sua identidade.

 

Referências Bibliográficas

 

ABIB, Pedro Rodolpho J. (Org). Mestres e capoeiras famosos da Bahia. Salvador: EDUFBA. 2009.

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CARVALHO, Gisélia Lima; WENDLAND, Simoni Miriam; MOTA, Ana Maria Guimarães. O Impacto da Feira Hippie no Setor Turístico-Hoteleiro de Goiânia. In: Boletim Goiano de Geografia, v. 27, n. 3, pp. 29-48, abr. 2008.

Disponível em: <http://www.revistas.ufg.br/index.php/bgg/article/view/3827/3554>. Acesso em: 05 Jul. 2013.

CHAUL, Nasr F. Caminhos de Goiás: da construção da decadência aos limites da modernidade. 3. ed. Goiânia: Editora UFG. 2010.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, Editora dos Tribunais. 1990.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto História: Revista do Programa de Pós-Graduação em História do Departamento de História da PUC-SP. (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). São Paulo. pp. 7-27. 1981.

REIS, Letícia Vidor de Sousa. O mundo de pernas para o ar: A Capoeira no Brasil. 3. Ed. Curitiba: CRV, 2010.

ROCHA, Ana Luiza Carvalho da; ECKERT, Cornélia. O tempo e a cidade. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2005.

TUCUNDUVA, T. Mestre Sabú e a Capoeira Angola em Goiás: história, sonhos e dilemas de um educador popular. Monografia (Graduação). 89 f. Universidade Federal de Goiás. Faculdade de Educação Física. Goiânia. 2009.

VIEIRA, Emílio. Na roda do berimbau. Goiânia: Gráfica do Livro Goiano. 1973.

Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Tucunduva, Tatiana: "As manifestações da Capoeira Angola na praça cívica de Goiânia em 1970" en Revista Caribeña de Ciencias Sociales, febrero 2015, en http://caribeña.eumed.net/capoeira-angola/

Revista Caribeña de Ciencias Sociales es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.