O USO DE GEOTECNOLOGIA COMO FERRAMENTA ALTERNATIVA NA IDENTIFICAÇÃO DE ÁREAS INUNDÁVEIS EM ZONAS URBANAS: UM ESTUDO DE CASO NA LAGOA DA FRANCESA EM PARINTINS-AM

RESUMO

Neste trabalho foi gerado um mapa para espacialização e classificação das áreas inundáveis nos entornos da Lagoa da Francesa em Parintins, AM referente à enchente sazonal de 2012, que segundo dados do CPRM, em Parintins, foi a segunda maior cota da história, atingindo a marca de 907 cm, causando prejuízos de várias ordens. Com auxílio de um aparelho receptor de GPS foram coletados 76 pontos onde a lâmina d’água atingiu seu ponto máximo. Com os pontos coletados construiu-se o mapa de inundação utilizando-se software livre, Quantum GIS 1.7.3 Wroclaw e imagens de satélite do Google Earth. Assim, foi possível identificar as áreas inundáveis nos entornos da lagoa, classificando-as em: vulneráveis, suscetíveis ou de riscos. Com este trabalho pretende-se demonstrar para a comunidade afetada e aos órgãos responsáveis uma ferramenta alternativa que resulte em estudos preventivos e medidas objetivas para a prevenção quanto aos riscos inerentes a esse desastre natural.

Palavras chave: Mapa de Inundação, Geotecnologia, Parintins.

RESUMEN

En este estudio, fue creado un mapa espacial y para la clasificación de los humedales en los alrededores del estanque francés en Parintins, me refiero a la inundación estacional de 2012, que de acuerdo con la CPRM en Parintins, se generó fue la segunda mayor participación de la historia, alcanzando 907 cm, que causan pérdidas de varios órdenes. Con la ayuda de un dispositivo receptor GPS se recogieron 76 puntos donde la profundidad del agua alcanza su punto máximo. Con los puntos enumerados se construyó el mapa de inundación usando software libre Quantum GIS 1.7.3 Wroclaw y las imágenes de satélite de Google Earth. Así, fue posible identificar los humedales en los alrededores de la laguna, clasificándolos como: vulnerable, susceptible o riesgos. Con este trabajo se pretende demostrar a la comunidad afectada y organismos una herramienta alternativa que se traduce en los estudios de prevención y medidas objetivas para la prevención y los riesgos inherentes a este desastre natural.

Palabras clave: Mapa de Inundaciones, Geotecnia, Parintins.

INTRODUÇÃO

 

O melhor meio para se evitar grandes transtornos por ocasião de uma inundação é regulamentar o uso do solo, limitando a ocupação de áreas inundáveis, neste sentido, as geotecnologias têm muito a contribuir com o poder público, no intuito de auxilia-lo na gestão do território, pois através da construção de mapas de inundação com o auxilio de SIG (Sistema de Informação Geográfica), pôde-se identificar no local estudado às áreas de risco, suscetíveis ou vulneráveis aos danos provocados pelo fenômeno natural de cheias e vazantes do rio Amazonas. Pois como afirma Santos (2012), a técnica e a ciência presentearam o homem com a capacidade de acompanhar o movimento da natureza, exemplo disso são as imagens de satélites que ao retratar a natureza em intervalos regulares, possibilita ao homem acompanhar a evolução das situações, e em muitos casos, imaginar a sucessão dos eventos em períodos futuros.

Em Parintins, o meio ambiente vem sofrendo nas últimas décadas uma série de alterações provocadas por atividades antrópicas, como ocupação desordenada e aterros. No passado, a zona urbana de Parintins era uma pequena ilha fluvial, hoje, é um arquipélago fluvial unido através de aterros e pontes, que por ser uma planície torna as áreas baixas suscetíveis as grandes inundações, desencadeando assim, uma crescente necessidade de se apresentar soluções e estratégias que minimizem e revertam os efeitos da ocupação desordenada e degradação ambiental.

O objetivo deste trabalho foi gerar um mapa para espacialização e classificação das áreas inundáveis nos entornos da Lagoa da Francesa em Parintins, AM, a partir de ferramentas de geoprocessamento, sensoriamento remoto e dados hidrológicos referente à enchente sazonal de 2012, que segundo dados do CPRM, em Parintins, foi a segunda maior cota da história, atingindo a marca de 907 cm no dia 13 de junho de 2012.

Por meio destas ferramentas, foi possível identificar os bairros mais afetados pela inundação no entorno da lagoa da Francesa em Parintins, analisando-se quantitativamente os resultados obtidos para a classificação das áreas suscetíveis, vulneráveis e de risco dessas localidades.

 

1. Compreensão das formas, processos e dinâmicas atuantes nas áreas inundáveis da lagoa.

 

No processo de construção do mapa de inundação, necessitou-se compreender a geomorfologia do lugar, identificando quais são os principais processos hidrológicos que ocorre nessa porção do espaço, buscado entender como ocorre cada um deles, bem como diferenciá-los entre si, classificando os diferentes níveis em termos de potencialidades de impactos, que cada um deles pode causar na sociedade. Desse modo, devemos esclarecer, quais são os principais processos hidrológicos, bem como, buscar compreender a geomorfologia do local onde foi realizado o estudo.

 

1.1 Geomorfologia da área de estudo.

 

Localizada geologicamente sobre uma área de planície na margem do rio Amazonas, Parintins apresentou nos últimos anos vários problemas sociais, econômicos e ambientais decorrentes do transbordamento do leitor maior periódico ou sazonal do rio, que por vezes, atingindo o leito maior excepcional, ou seja, quando as cheias mais elevadas inundam locais em intervalos de tempo irregulares, potencializam os danos causados por esse fenômeno.

A lagoa da Francesa, nossa área de estudo, está situado em uma área de planície de inundação ou várzea baixa, como mostra a figura 1 “Planície Quaternária” proposto por Soares (1991), que segundo Chistofoletti (1980), são áreas formadas por aluviões e pelos materiais variados depositados no canal fluvial ou fora dele. As planícies inundáveis têm por característica, na vazante ter o seu escoamento restrito a parcelas do seu canal fluvial, onde há deposição por parte da carga detrítica com o progressivo abaixamento do nível das águas. O contrário ocorre no período das cheias, onde há a elevação dos níveis das águas que, muitas vezes transbordam suas margens e inundam as áreas baixas marginais.

 

1.2 Processos hidrológicos

 

Os três principais processos hidrológicos envolvidos no fenômeno natural de cheias e vazantes do rio Amazonas, que atinge sazonalmente o município de Parintins, são chamados de enchentes ou cheias, inundação e alagamento (figura 2), e esses termos, que embora causem algumas confusões na hora de emprega-los por parecerem sinônimos, tem definições próprias, e se faz necessário compreender como ocorre cada um desses processos.

 

1.2.1 Enchentes

 

Na concepção de Guerra & Guerra (2011), são consideradas como enchentes, as grandes chuvas que ocorrem nos rios, e o que caracteriza as enchentes é a sua irregularidade, não ocorrendo todos os anos.

As cheias ou enchentes podem ser entendidas como o aumento temporário do nível d’água no canal de drenagem devido o aumento da vazão, atingindo a cota máxima do canal, porém sem transbordamento[1].

Após essa breve explicação, entendemos por enchente neste trabalho, como o processo de aumento do nível d’água ultrapassando o leito menor da lagoa, atingindo a cota do leito maior do canal, porém sem transbordamento.

 

1.2.2 Inundação

Para Castro (1998), entende-se por inundação, o transbordamento de água da calha normal dos rios, mares, lagos e açudes, ou acumulação de água por drenagens deficientes em áreas não habitualmente submersas. Em função de sua magnitude, as inundações podem ser classificadas como excepcionais, de grande magnitude, normais ou regulares e de pequena magnitude.

Segundo Castro (2003, p. 40) “as inundações tem como causa, a precipitação de água anormal que, ao transbordar dos leitos dos rios, lagos, canais e áreas represadas, invade os terrenos adjacentes provocando danos”.

Para este estudo compreenderemos por inundação, o aumento temporário do nível da água, por meio de condições hidrometeorológicas, transbordando o leito maior, alcançando a cota do leito excepcional da lagoa, atingindo assim, áreas não habitualmente submersas.

 

1.2.3 Alagamento

 

Segundo o dicionário geológico-geomorfológico de Guerra & Guerra (2011), alagado significa uma área inundada logo após a enchente, para esses autores, o termo alagado possui o mesmo significado de inundação, o mesmo ainda ressalva que os terrenos alagadiços são sujeito a inundações por parte de rios e marés, conforme sua posição em relação ao mar ou aos rios, enfatizando que os terrenos alagadiços, são encharcados apenas periodicamente, e assim, durante certo período, pode se transformar em uma área seca.

O processo de alagamento pode ocorrer de várias maneiras, por deficiência no sistema de drenagem urbano, precipitação anormal de grandes volumes de água ou mesmo pelo aumento do nível das águas por meio de fenômenos naturais, como por exemplo, as cheias sazonais do rio amazonas. Em Parintins, esse termo é popularmente utilizado como sinônimo de inundação, por estar diretamente ligado ao período de enchente, vale ressaltar, que este é o período do ano em que ocorre o maior volume de precipitação na cidade.

Por tanto, para diferenciar o processo de alagamento do processo de inundação, foi considerado neste estudo, como áreas alagadiças, aquelas em apresentaram o acumulo de água nas ruas e nos perímetros urbanos por problemas no sistema de drenagem.

 

2.0 Metodologia

 

O trabalho foi realizado no município de Parintins, que está localizado na região do baixo Amazonas com as seguintes coordenadas geográficas: 2° 36’ de latitude sul e 56° 44’ de longitude oeste, a 50 metros acima do nível do mar, sito à margem direita do rio amazonas, seu território corresponde a uma área de 5.952 km². A Lagoa da Francesa, local onde foi realizado o estudo de caso, está localizada a leste da área central da cidade.

O estudo foi realizado junto a uma abordagem quantitativa, pois a elaboração de um mapa de inundação necessita quantificar ao espacializar as áreas atingidas para o conhecimento da dimensão das áreas impactadas, sendo divido em três etapas.

Primeiro, foi realizado a coleta de dados em campo com auxilio dos moradores do local, observando marcas d’água em muros e parede, utilizando um receptor de GPS Garmim modelo GPS MAP 76CSx, fazendo o levantamento dos pontos onde a lâmina d’água atingiu seu ponto máximo.

Os dados obtidos na etapa anterior foram exportados para o Quantum GIS 1.7.3 wroclaw, este sendo um software livre de SIG (Sistema de Informação Geográfica) disponibilizado gratuitamente pelo site oficial do programa www.qgisbrasil.com, o fato de este ser um software livre, viabiliza a realização da pesquisa pelo baixo custo financeiro. Neste programa, através da ferramenta Open Layer Plugin, pôde-se importar imagem de satélite da área pesquisada, o programa ainda possibilitou sobrepor na imagem de satélite os 76 (setenta e seis) pontos de GPS colhidos em campo, e com auxilio da ferramenta de manipulação de desenho, construir um Buffer das áreas inundáveis no entorno da lagoa, o resultado deste processo, foi a construção do mapa de reconhecimento das áreas atingidas pela inundação de 2012 nos entornos da lagoa da Francesa em Parintins.

Por fim, com o mapa de reconhecimento da inundação construído, foram classificadas as áreas suscetíveis, vulneráveis e de risco, de acordo com sua localização e seu histórico com as enchentes passadas, relatadas por moradores do local. Utilizamos ainda, a ferramenta de medida disponibilizada no programa para mensurar a área total atingida pela inundação e descobrir a área total compreendida por cada uma das classes de análise proposta pelo estudo.

 

3.0 Resultados

 

Objetivando a construção do mapa de inundação da lagoa da Francesa, foi construído primeiramente o mapa de reconhecimento da inundação ocorrida em 2012 (figura 4), com auxilio da ferramenta de medida de área, pôde-se mensurar a área total atingida pela lâmina d’água por meio do transbordamento do leito maior da lagoa, que foi de aproximadamente 215.000 m2, atingindo os seguintes bairros: Santa Rita, Santa Clara, Francesa, Palmares e Castanheira, como mostra a tabela 1.

 

Bairros Atingidos Pela Inundação Área Inundada
Santa Clara 102.366,12 m²
Francesa 50.920 m²
Santa Rita 25.480 m²
Castanheira 23.140 m²
Palmares 13.070 m²

Tabela 1: Lista de bairros atingidos pela inundação ocorrida em 2012 e suas respectivas áreas afetadas pelo evento.

Fonte: PINTO, 2013.

 

Para a construção do mapa de inundação (figura 5) proposto por este estudo, foram tomadas como referência três diferentes níveis de análise, sendo estes: suscetibilidade, vulnerabilidade e risco.

As áreas classificadas como vulneráveis, foram aquelas em que embora ainda não tenham sido afetadas de forma direta pelas inundações, em caso de um evento de maiores proporções, tendem a ser atingidas, devido a condições topográficas e proximidade com áreas já inundadas em eventos passados. Essa classificação atendeu ao conceito de vulnerabilidade do Glossário de defesa civil estudos de riscos e medicina de desastre, onde, áreas vulneráveis, são entendidas como: determinadas comunidades ou áreas geográficas com probabilidade de ser afetada por uma ameaça ou risco em potencial de desastre, estabelecida a partir de estudos técnicos.

Para o segundo nível de análise, classificado como suscetível, foram destacado no mapa, como áreas que não são atingidas de forma periódica (todos os anos), porém, em eventos de inundação em nível excepcional, estão suscetíveis aos danos provocados pelo fenômeno.

Por fim, o terceiro nível de análise, risco, este sendo classificado como o mais crítico, pois neste estudo, as áreas classificadas como de risco, são as áreas atingidas de forma periódicas, ou seja, estão expostas aos danos causados pelo fenômeno.

Com o mapa de inundação da lagoa da Francesa construído, foi contabilizado com auxilio da ferramenta de medida, a área total de abrangência de cada um dos diferentes níveis de classificação das áreas inundáveis proposto pelo estudo. Expostos tabela a 2.

Níveis de Classificação Área Total Inundada
Vulnerável 21.019,3 m2
Suscetível 45.936,9 m2
Risco 76.973,8 m2

Tabela 2: Níveis de classificação das áreas inundáveis e suas respectivas áreas.

Fonte: PINTO, 2013.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Embora o estudo tenha sido realizado especificamente na área da lagoa da Francesa, a enchente sazonal de 2012, a segunda maior já registrada, afetou várias outras localidades do município, dados da Defesa Civil do município revelam que em todo município 16.123 pessoas foram afetadas por esse desastre natural, sendo 8.461 desalojados e 7.745 deslocados, os prejuízos materiais causados por esse desastre são estimados em R$ 753.113,00. Valor classificado como muito importante (nível mais crítico) na avaliação conclusiva sobre a intensidade do desastre construída pelo órgão.

Ao analisar dados dessa natureza, evidencia-se a necessidade de ampliar a construção de mapas de inundação a toda área do município, seja rural ou urbana, pois esta ferramenta mostrou-se útil na análise das áreas inundáveis, permitindo uma aproximação das imagens para visualizar detalhes da área desejada, como por exemplo: número de casas atingidas, APP degradadas e outros, como mostra a figura 7, possibilitando assim estudar formas de contenção ou mitigação das inundações em cada tipo de terreno.

Espera-se que a execução deste trabalho, mostre tanto à comunidade afetada, quanto aos órgãos responsáveis interessados em solucionar o problema, uma ferramenta alternativa que resulte em estudos preventivos e medidas objetivas, pois a prevenção quanto aos riscos de desastres ambientais é menos onerosa aos cofres públicos que a eliminação do problema já instalado.

 

REFERÊNCIAS

 

CASTRO, A. L. C. Glossário de defesa civil: estudo de riscos e medicina de desastres. Brasília: Ministério do Planejamento e Orçamento, 1998.

CASTRO, A. L. C. Manual de Desastres. Brasília: Ministério da Integração Nacional, 2003.

CHRISTOFOLETTI, A. Geomorfologia. 2. ed. São Paulo: Edgard Bucher, 1980.

DEFESA CIVÍL. Enchente, Inundação, Alagamento ou enxurrada?2011. Disponível em: <http://dcsbcsp.blogspot.com.br/2011/06/enchente-inundacao-ou-alagamento.htm>. Acesso em: 05/Set/2013.

GUERRA, A. T.; GUERRA, A.J.T. Novo dicionário geológico-geomorfológico. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

MONITORAMENTO HIDROLÓGICO. Manaus: Serviço Geológico do Brasil, Boletim N 21, 13.06.2012. Mensal.

SANTOS, M. A natureza do espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção – 4 ed. 7. reimpr.- São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.

SOARES, Lúcio de Castro. Hidrografia. IN.: IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Geografia do Brasil. Região Norte. Vol. 3, Rio de Janeiro: IBGE, 1991, p. 73 – 121.

AZEVEDO FILHO, João D’Anuzio M. A produção e a percepção do turismo em Parintins, AM, Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2013.



[1] Retirado do site da DEFESA CIVIL. Disponível em: <http://dcsbcsp.blogspot.com.br/2011/06/enchente-inundacao-ou-alagamento.htm>. Acesso em: 05/Set/2013.

 

Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Vasconcelos Andrade, Francisco Alcicley,Queiroz Pinto, Kelton Klinger y Oliveira Marques, Rildo: "O uso de geotecnologia como ferramenta alternativa na identificação de áreas inundáveis em zonas urbanas: um estudo de caso na lagoa da francesa em Parintins-AM" en Revista Caribeña de Ciencias Sociales, junio 2014, en http://caribeña.eumed.net/geotecnia/

Revista Caribeña de Ciencias Sociales es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.