RASTREANDO O ÓDIO ORGANIZADO. UM ESTUDO SOBRE O USO DE MOTORES DE BUSCA REVERSA PARA DETECÇÃO DO PADRÃO DE DISTRIBUIÇÃO DE GRUPOS DE ÓDIO NOS ESTADOS UNIDOS

O racismo e os grupos de ódio representam um problema que aflige os Estados Unidos e diversos países do mundo. Entretanto, estudar grupos de ódios não é fácil, pois, como muitos estão no limite entre a legalidade e a ilegalidade, identifica-los, nem sempre é fácil. Nesse sentido, nossa hipótese neste trabalho é de que o Google Trends é uma ferramenta útil para a identificação da distribuição geográfica dos grupos de ódio. Para testar nossa hipótese realizamos um estudo sobre os grupos de ódio nos Estados Unidos e o padrão de interesse por tópicos relacionados á racismo. Utilizamos os dados do The Southern Poverty Law Center, sobre a distribuição dois grupos de ódio por região nos Estados Unidos (2013) e criamos com o Google Trends três frequências (e uma média reativa a elas) sobre o interesse nos Estados Unidos de tópicos relacionados ao racismo (2004 – 2013). Nossos resultados mostram que há uma alta correlação positiva (p= < 0.001, r= 0.513) entre a média de interesse em tópicos relacionados á racismo e ódio (mensuradas no Google Trends) e a distribuição de grupos de ódio mensurada pelo The Southern Poverty Law Center, o que mostra que nossa hipótese goza de larga aderência. O resultado mostra que o Google Trends pode ser usado com precisão nos Estados Unidos para identificar a distribuição geográfica dos grupos de ódio, não obstante, indica também, que ele pode também apresentar positivos resultados em outros países.
Palavras chave: grupos de ódio, Estado Unidos, Google Trends.

Tracking organized hatred. A study on the use of reverse search engines for detection of distribution pattern of hate groups in the United States

Racism and hate groups represent a problem that afflicts the United States and several countries around the world. However, study groups of hatred are not easy, because many are in the boundary between legality and illegality identifies them, it is not always easy. In this sense, our hypothesis in this work is that Google Trends is a useful tool for the identification of geographical distribution of hate groups. To test our hypothesis we conducted a study on hate groups in the United States and the default interest in topics related to racism. We use data from The Southern Poverty Law Center, about distributing two hate groups by region in the United States (2013) and created with Google Trends three frequencies (and an average reactive to them) about the interest in the United States of racism-related topics (2004-2013). Our results show that there is a high positive correlation (p= < 0.001, r= 0.513) between the average interest in topics related to racism and hatred (measured in Google Trends) and the distribution of hate groups measured by The Southern Poverty Law Center, which shows that our hypothesis enjoys wide grip. The result shows that Google Trends can be used accurately in the United States to identify the geographical distribution of hate groups, nevertheless, indicates that he may also present positive results in other countries.
Key Words: hate groups, United States, Google Trends.

Introdução

            O racismo é um problema estritamente social onde ocorrem tensões entre indivíduos motivadas por estereótipos sociais. Nos Estados Unidos, e em outros países, é possível ver que o racismo e o ódio, enquanto ideologia se materializou na forma de grupos de ódio, que atuam contra as minorias, pregando ideais supremacistas e ou segregativos.

O crescimento destes grupos de ódio está quase sempre associado ao crescimento na taxa de crimes de ódio, o que representa um desafio para os governos, para a completude dos direitos humanos e para toda sociedade. Como boa parte desses grupos age no limite entre a legalidade e a ilegalidade, encontra-los, nem sempre é fácil, o que dificulta ainda mais o planejamento da política de segurança pública. Em tempos recentes, a ferramenta Google Trends têm se mostrado útil para o estudo de um infinito arcabouço de fenômenos sociais, á um custo baixo, em tempo real e com cobertura de praticamente todos os países do mundo.

Nesse sentido, a dúvida que guia este trabalho é, seria o Google Trends uma ferramenta funcional para a detecção do padrão de distribuição geográfica dos grupos de ódio? Nossa hipótese é de que o Google pode mensurar com significativa precisão o padrão de distribuição de grupos de ódio. Para testar nossa hipótese realizamos um estudo sobre os grupos de ódio nos Estados Unidos e o padrão de interesse por tópicos relacionados á racismo. Utilizamos os dados do The Southern Poverty Law Center, sobre a distribuição dois grupos de ódio por região nos Estados Unidos (2013) e criamos com o Google Trends três frequências (e uma média reativa a elas) sobre o interesse nos Estados Unidos de tópicos relacionados ao racismo (2004 – 2013).

Nossos resultados mostram que há uma alta correlação positiva (p= < 0.001, r= 0.513) entre a média de interesse em tópicos relacionados á racismo e ódio (mensuradas no Google Trends) e a distribuição de grupos de ódio mensurada pelo The Southern Poverty Law Center, o que mostra que nossa hipótese goza de larga aderência. O resultado mostra que o Google Trends pode ser usado com precisão nos Estados Unidos para identificar a distribuição geográfica dos grupos de ódio, não obstante, indica também, que ele pode também apresentar positivos resultados em outros países.  Este é um consistente avanço metodológico que pode influenciar de forma positiva a agenda de pesquisa sobre grupos de ódio, e também, útil ao planejamento de políticas de segurança.

 

Grupos de ódio nos Estados Unidos

 

Nos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro, têm se observado um constante crescimento das tendências de extrema direita, o que ocorre de forma concomitante ao do volume de grupos de ódio[1]. Essa tendência também é observada com bastante intensidade em países da Europa. De toda forma, tanto os atentados de 11 de setembro, quanto à eleição de Barack Obama em 2008, levou as autoridades a mudar de postura em relação aos grupos de ódio, sejam eles milicianos ou supremacistas (Tostes, 2012).

De todo modo, antes disso, já há antecedentes do nascimento de um novo tipo de ativismo político ligado à formação de grupo de ódio nos Estados Unidos. O atentado de Oklahoma em 1995 marcou o inicio de um novo tipo de extremismo politico, ostentando ideologias revolucionarias e disposto a realizar ataques e crimes diversos contra vitimas inocentes. Os dados empíricos recentes sugerem que há uma taxa exponencial de crescimento de grupos de ódio nos Estados Unidos, o que indica que tende também a haver um constante aumento do numero de crimes de ódio e de planos terrorista em nível doméstico, o que representa um desafio para a lei e para a sociedade americana (Beirich & Potok, 2009; Hall, 2013). Nos Estados Unidos os grupos de ódio estão bem organizados e distribuídos, tanto nas regiões mais urbanas, como também nas regiões rurais por todo cinturão agrícola (Young, 1990). Há seis categorias distintas onde podemos enquadrar a maioria dos grupos de ódio dos Estados Unidos, são elas: 1)neoconfederados; 2)neonazistas; 3)skinheads racistas; 4)separatistas negros; 5)klans (que derivam da Ku Kux Klan) e 6)outros, nessa categoria, estão inclusas organizações que lutam pela “supremacia branca”, grupos que se identificam com o cristianismo patriota e se identificam com movimentos militantes anti-gay (Woolf & Hulsizer, 2004).

Alguns fatores[2], mais do que outros, parecem colaborar para o crescimento do numero de grupos de ódio nos EUA. Por exemplo, a crise econômica, a consequente escassez de empregos, o aumento da imigração de “não brancos[3]”, alterações demográficas bruscas e também a eleição de Barack, o primeiro presidente negro dos EUA. Mas os crimes de ódio não estão restritos aos Estados Unidos, ao contrario, são frequentes e estão distribuídos de forma desigual por todo planeta. Nesse cenário, os grupos de ódio ocupam um papel chave, pois eles podem incitar a violência, mesmo quando não participam diretamente dos crimes.  (Cotter, 1999; Dees & Bownden, 1995; Michael, 2004).

Nos Estados Unidos a internet se tornou também uma importante ferramenta para o recrutamento de grupos de ódio extremistas. Desde a segunda metade dos anos 1990, proliferaram-se centenas de websites com conteúdo extremista racista contendo diversos, ensaios, fóruns de discussão, salas de bate papo e outros recursos, se espalharam por toda rede. Ao contrario de gangues de rua, onde tradicionalmente á um apoio para a interação face a face, a internet oferece uma possibilidade social muito maior, no caso de extremistas, a internet possibilita a troca de apoio social, independente da região geográfica. Há de se considerar que, grupos extremistas mais marginalizados, se ancoram na internet, porque os membros podem trocar informações, sem o controle do governo, ou, da mídia convencional (Schafer, 2002).

A internet também favorece a formação de grupos de ódio na medida em que ela oferece meios pouco onerosos de gerir a imagem do seu grupo, de forma que ela pareça mais aceitável para as pessoas que estão no mainstream social e político. Nesse sentido, para os grupos de ódio americanos, a internet funciona como uma ponte cognitiva entre ideologias racistas e ideologias e ou visões do mundo mais bem toleráveis. Um indivíduo pode, inicialmente, encontrar discrepâncias entre seu sistema de crenças e ideologias racistas, o que o leva a, de imediato, a recusá-las. Mas, a internet oferece um meio onde, com o tempo, os indivíduos que são cognitivamente mais apegados com temas específicos (impostos, gastos sociais, sistemas de ensino, aborto, etc), criam laços de simpatia com outras dimensões ideológicas dos grupos de ódio. O conteúdo ligado a grupos de ódio, espalhados nas mais diversas mídias sociais, oferece um meio onde um indivíduo pode, por exemplo, acessar um site de um grupo de ódio a fim de obter informações de um assunto totalmente inócuo, e, ao entrar em contato com outras informações lá disponível, pode desenvolver familiaridade com as ideologias e idéias (Schafer, 2002). Em suma, a internet favorece grupos de extrema direita e grupos de ódio, pois ela é um meio útil e barato para veiculação de propaganda, para reunir simpatizantes e também para incitar a violência. Por conta disso, a internet favorece todos os movimentos sociais, em especial, aqueles que vivem na fronteira política da legalidade e da ilegalidade (Caiani & Parenti, 2011.).

Dentro destes grupos americanos de extrema direita, é possível, averiguar a existência de alguns traços sociais comuns, tais como, o antiestatismo, antiparlamentaríssimo, antielitismo, o uso do componente violência, formas de nacionalismo exacerbado, etnocentrismo e anticomunismo. Têm sido documentado também essas organizações como promotoras de opiniões anti-integração, racistas[4], anti-imigração, anti-gay[5] em alguns casos, chegando ao ponto de promover expurgos e também, planejar genocídios reais. O consenso acadêmico é de que o extremismo de direita (assim como outros extremismos) é marcado pela tendência do exercício de praticas que extrapolam os limites normativos dos procedimentos que definem o processo politico democrático.

Um estudo recente comparou sites relacionados a grupos de ódio racial e grupos separatistas. Na analise constatou-se que a maior parte dos sites contém links externos para outros sites extremistas. Encontrou-se especificamente nestes sites material símbolos racistas, literatura sobre supremacia racial, e uma pequena parcela de conteúdo sobre violência. Neste estudo, assim como em outros, constata-se a máxima de que a internet é uma ferramenta poderosa para que os grupos de ódio obtenham publico dentro e fora do país, permite também o recrutamento de novos membros, o contato com outros grupos extremistas e também o controle da autoimagem (Gerstenfeld, Grant & Chiang, 2003).

Nos Estados Unidos a principal instituição incumbida de combater os crimes de ódio e consequentemente os grupos organizados de ódio é o FBI (Federal Bureau Investigation). Os casos registrados em ocorrências policiais como crimes de ódio recebem prioridade no Programa de Direitos Civis do FBI. O FBI está incumbido de atuar na prevenção de crimes de ódio e também na ação repressiva rápida quanto eles ocorrem.  Legalmente, o FBI por meio do Programa de Combate ao Terrorismo Doméstico tem o direito legal de investigar grupos violentos (que concentram o uso da força ilícita para fins políticos ou sociais) a fim de determinar sua estrutura e seu potencial associativo (Clarke, 1991).

 

Google Trends e grupos de ódio

 

No geral, o tema racismo e ódio organizado nos Estados Unidos e no mundo é um tema difícil para se incluir nas agendas de pesquisa por pelo menos quatro motivos: 1)em muitas localidades a discussão do tema racismo é um tabu difícil de transpor;  2)viver em esferas onde o racismo faz parte do cotidiano , pode gerar ruídos que podem ofuscar o foco da pesquisa; 3)uma tendência de se limitar a um espectro excessivamente macro ou micro para estudar o racismo; 4)a escassez de bons dados (Blee & Burke, 2014). Neste diapasão, ao que parece, o desafio mais oneroso desta lista é o quarto, vide que a escassez de dados pode inviabilizar por vezes a execução de pesquisas mais duras. Em relação a esta limitação, nossa hipótese é de que, o Google Trends[6] representa uma ferramenta que pode, em larga medida, transpor esse obstáculo, oferecendo dados gratuitos referentes à frequência temporal e geográfica de tópicos e termos em praticamente todo o mundo.

Isso porque, o Google Trends tem sido funcional para a detecção de uma série de fenômenos sociais, tais como protestos (Moraes & Santos, 2012), demanda por jornais (Moraes & Maia, 2014), doenças sazonais (Olson, Konty, Paladini, Viboud & Simonsen, 2013; Ayers, Althouse, Allem, Rosenquist & Ford, 2013; Guolo & Varin, 2014), obesidade nas populações (Sarigul & Rui, 2014; Linkov, Bovbjerg, Freese, Ramanathan, Michel Eid & Gourash, 2014), comportamento sexual (Markey & Markey, 2010; 2011), consumo (Schmidt & Vosen, 2013; Einav & Levin, 2013), preços do mercado financeiro (Kristoufek, 2013; Preis, Moat & Stanley, 2013; Challet & Ayed, 2014), tendências politicas (Mellon , 2013; Seithe & Calahorrano; 2014; Moraes, Santos, Torrecillas & Leão, 2014), dentre muitos outros, entretanto, até o presente momento não há registro que ela tenha sido para estudar o racismo ou grupos de ódio. Neste ponto, sendo nossa hipótese de trabalho corroborada, talvez possamos afirmar que, o Google Trends seja uma excelente ferramenta para o estudo do racismo e também, para a localização geográfica da tendência de distribuição de grupos de ódio por cada localidade, não só nos Estados Unidos, mas também, em qualquer outro país.

Em relação aos métodos utilizados tradicionalmente pelos cientistas sociais, como aplicação de questionários de survey em populações pré-determinadas, o Google Trends traz uma série de avanços. Primeiro, devemos considerar que está ferramenta supera a limitação recorrente em pesquisas de opinião no que se refere à incompatibilidade entre o comportamento real e o relatado, dito de outra forma, as pessoas costumam mentir em pesquisas de opinião, mas não o fazem em buscadores de internet. Devemos considerar também a possibilidade infinita de coletas de dados a um custo muito inferior ao das pesquisas de campo. A ferramenta também permite que se encontrem novas populações e que mudanças bruscas no interesse das populações sejam detectadas. Por fim, mas sem esgotar os argumentos em favor da ferramenta, ela permite a coleta de dados múltiplos de diferentes períodos (Lazer, Pentland, Adamic, Aral, Barabasi, Brewer & Van Alstyne, 2009; Moraes & Santos 2013).

 

Metodologia

 

O estudo da internet é complexo, isso porque é muito difícil quantificar e delimitar, por assim dizer, as proporções da internet. Uma forma comum de execução de estudos em ciência social computacional é analisar um determinado grupo de websites a fim de obter informações relevantes para o mundo off-line. Entretanto, há de se considerar que este tipo de estudos esbarra, por veze sem limitações, como as mudanças constantes do conteúdo das paginas e dos conteúdos interligados (que dificultam qualquer tipo de tabulação e codificação de dados); os critérios utilizados para a seleção do grupo, dentre outras. De toda forma, os estudos sobre o comportamento on-line dos grupos de ódio,  se deve, investigar um numero década vez maior de websites, e todo tipo de conteúdo on-line, afim de entender, o padrão de distribuição desses grupos, de interação entre eles e suas ações (Byrne, Nei, Barrett, Hughes, Davis, Griffith, J & Mumford, 2013).

Par superar essas e outras limitações, nós propomos que a ferramenta do Google, Google Trends, pode ser uma potente ferramenta para identificar a densidade regional de grupos de extrema direita e grupos de ódio em geral. Tal objetivo é inédito na literatura, não há antecedentes de nenhuma pesquisa que visa identificar a densidade distribuição geográfica das organizações grupos de ódio com motores de busca reversa. Nossa hipótese de trabalho é de que o Google Trends é uma ferramenta precisa para identificar a densidade e distribuição de grupos de ódio. Para testar essa hipótese nós utilizados os dados do sobre a distribuição de grupos de ódio nos Estados Unidos da América em 2013 do The Southern Poverty Law Center[7], de acordo com o Estado quatro frequências, sendo três delas os valores médios de distribuição do interesse pelos tópicos[8] racism, nazi party e hatred (2004 – 2013); e outra frequência relativa à média total do interesse destes 3 tópicos.  Nós organizamos as frequências e buscamos correlações para com a distribuição mensurada de grupos de ódio nos Estados Unidos.

 

Resultados

 

Na Tabela 1 elencamos o valor da distribuição regional de grupos de ódio nos Estados Unidos mensurado pelo The Southern Poverty Law Center e dados do Google Trends relativos às frequências de interesse dos tópicos racismo (racismo), nazi party (partido nazista), hatred (ódio) e uma média que traçamos para a distribuição destas três frequências.

Na Tabela 2 traçamos uma estatística descritiva para os tópicos de interesse mensurados no Google Trends e a média total deles. É interessante notar que os tópicos Hatred e Racism foram os que obtiveram maior média e também tiveram valores semelhantes quanto aos mínimos e máximos.

 

Tabela 2

Estatística descritiva do interesse mensurado no Google Trends

Tópicos Média CI 95%2 Desvio Padrão Min Max
HatredHatred 80.176 78.143 – 82.209 7.407 67.0 100.0
Nazi_Party 62.392 54.119 – 70.666 30.145 0.0 100.0
Racism 81.118 78.495 – 83.741 9.558 62.0 100.0
Média_-_Interesse_Em_Ideologias_E_Grupos_De_Ódio 75.673 72.206 – 79.141 12.385 43.33333333 100.0

Fonte: elaboração dos autores.

 

Na Tabela 3 nós traçamos correlações entre os tópicos mensurados no Google Trends e a distribuição geográfica dos grupos de ódio nos Estados Unidos mensurada pelo The Southern Poverty Law Center. Como fica evidente na Tabela 3 e no Gráfico 1, há uma consistente correlação positiva entre a média de interesse mensurada no Google Trends e a distribuição dos grupos de ódio (p= < 0.001, r= 0.513). Isso mostra que nossa hipótese tem larga aderência, o que faz do Google Trends uma ferramenta útil para a pesquisa dos grupos de ódio nos EUA e possivelmente, em outros países. O tópico nazi party foi o que teve maior correlação (p= < 0.001, r= 0.934), o que indica que, alguns tópicos sejam mais adequados para mensurar a distribuição de grupos de ódio do que outros.

Para outros países, em que a frequência Beta ainda não está habilitada é possível elencar termos, no idioma regional, e trabalhar com tais estimativas. Entretanto, Como nosso estudo é o primeiro do gênero, fazem-se necessários outros estudos, em outros países, a fim de aperfeiçoar a técnica de medição da densidade regional de grupos de ódio.

Tabela 3

Correlações entre as frequências de interesse no Google Trends e a distribuição de grupos de ódio medida pelo The Southern Poverty Law Center

Tópicos Pearson
Hatred (ódio) p= < 0.001, r= 0.676
Nazi Party (partido nazista) p= < 0.001, r= 0.934
Racism (racismo) p= < 0.001, r= 0.721
Média de interesse em ideologias e grupo de odio p= < 0.001, r= 0.513

Fonte: elaboração dos autores.

 

Considerações finais

A identificação quanto à distribuição dos grupos de ódio, sem duvida, representa um meio para a compreensão da dinâmica destes grupos e também, um meio para o planejamento da politica de segurança. Isso favorece a completude quanto à oferta dos direitos humanos ao mesmo tempo em que se produzem vias para a atuação na prevenção e repressão contra grupos de ódio. Quanto à dificuldade de se obter dados consistentes, o Google Trends parece ser uma ferramenta útil para transpor tal obstáculo.

Nossos resultados mostram que há uma alta correlação positiva (p= < 0.001, r= 0.513) entre a média de interesse em tópicos relacionados á racismo e ódio (mensuradas no Google Trends) e a distribuição de grupos de ódio mensurada pelo The Southern Poverty Law Center, o que mostra que nossa hipótese goza de larga aderência. Este resultado corrobora a capacidade da ferramenta Google Trends para encontrar e monitorar a distribuição dos grupos de ódio. Talvez, a ferramenta funcione também com aderência em outros países, entretanto, se fazem necessários mais estudos para aperfeiçoar o método de medição do volume de grupos de ódio com o Google Trends nos diversos países.

 

 

Referencias

 

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[1] Em geral, esses grupos são formados por indivíduos que compartilham os mesmos pontos de vistas, interesses e objetivos. Estes grupos ideológicos violentos são ligados a valores que os encorajam a praticar e ou tolerar a violência no intuito de sustentar e ou promover a ideologia que o lastreia. Neste ponto, a ideologia extremista torna-se uma justificativa do comportamento agressivos dos membros (Byrne, Nei, Barrett, Hughes, Davis, Griffith, J & Mumford, 2013).  De forma simples, podemos definir um grupo ou organização de ódio como um montante de indivíduos que estão dispostos a compartilhar crenças e ações contra outras classes de indivíduos, com base na etnia, a percepção de raça, orientação sexual, religião e ou outras características inerentes. Claro que é preciso definir dois pontos chave: 1)grupos de ódio são organizados, tanto o nível de visibilidade para a comunidade, quanto o sistema de promoção de crenças levam a impactos na estrutura organizacional do grupo; 2)os sistemas de crenças fundamentais de qualquer grupo de ódio têm como objetivo principal a promoção do ódio (Woolf & Hulsizer, 2004).

[2] Dentro da pesquisa sobre movimentos sociais, a conceptualização do micro mobilização aponta para um processo de two steps, onde num primeiro momento o individuo adquire vontade de participar de um momento e um segundo momento, onde essa vontade de participar se reverte em participação efetiva. Todavia, essa conceptualização se esquece da principal motriz desse processo, anterior á vontade de participar, a identificação e simpatia para com tais movimentos e também ideias e crenças culturais (WARD, 2013).

[3] O argumento da imigração não branca, com sucesso, tem sido usado por grupos pró-supremacia branca que disseminam ódio contra estrangeiros e indivíduos de outras etnias (Beirich & Potok, 2009; Hall, 2013).

[4] O racismo deriva da crença popular de que existem muitos grupos raciais humanos e que, há um nível hierárquico entre eles onde o nível mais inferior recebe o titulo de “sub-raça”. Embora o conceito de raça seja uma usual categoria politica e social que promove intensa desigualdade na distribuição de recursos e direitos em diversas sociedades podem dizer que raça é uma construção cultural sem nenhum lastro na ciência objetiva. Em sua, a variação em tipos raciais discretos, ao contrario, os trações graduais surgem em variações continuas sem distinções acentuadas de uma população para outra. Em ultima instancia, a maior parte da variação genética humano existe dentro das próprias populações e não entre populações diferentes. Logo, o racismo pode ser visto, unicamente, como um problema social, pois, os conflitos raciais resultam de estereótipos sociais e não de fatos científicos. Mas isso não impede que os racistas do presente, assim como fizeram os do passado, invoquem noções ultrapassadas sobre diferenças biológicas para lastrear o uso de práticas sociais injustas.  (Haviland, McBride, Prins & Walrath, 2011).

[5] Estudos recentes apontam que nos Estados Unidos uma significativa parcela dos homossexuais já sofreu violência, assedio verbal, e discriminação por parte de outros indivíduos e grupos de ódio. Os homens gays mostram mais propensos do que mulheres lésbicas e bissexuais a sofrerem discriminação, entretanto, em ambos os grupos, ela é crescente (Herek, 2009).

[6] O Google Trends funciona como um motor de busca reversa, ou seja, enquanto os motores de busca tradicionais oferecem uma lista de sites com conteúdo relacionado ao termo pesquisado, o Google Trends, oferece frequências para quase todos os países sobre os termos e tópicos procurados pelos usuários dos motores do Google em quase qualquer país e em qualquer período á partir de 2004 (Moraes & Santos, 2013).

[7] O The Southern Poverty Law Center é uma organização do Alabama que atua na pesquisa relacionada aos grupos de ódio e a prevenção por meio de canais legais e educação publica. Basicamente, esse centro de pesquisas atua em três níveis: 1)monitorando o litigio e grupos extremistas; 2)monitoramento das atividades de inteligência dos grupos extremistas e 3)incentivo ao tema tolerância na pratica de ensino (Bauer & Reynolds, 2009).

[8] Neste trabalho nós usamos a frequência do Google Trends do tipo Beta. Essa frequência procura cada o tema registrado como um tópico, onde ela considera para compor seu valor a média total de frequência de interesse que tiveram outros termos correlacionados ao tema, mesmo que, escritos com algoritmos e idiomas totalmente distintos (Moraes, Santos, Torrecillas & Leão, 2014).

Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Bernardes de Moraes, Thiago y Perez de Moraes, Suelen: "Rastreando o ódio organizado. Um estudo sobre o uso de motores de busca reversa para detecção do padrão de distribuição de grupos de ódio nos Estados Unidos" en Revista Caribeña de Ciencias Sociales, julio 2014, en http://caribeña.eumed.net/odio-organizado/

Revista Caribeña de Ciencias Sociales es una revista académica, editada y mantenida por el Grupo eumednet de la Universidad de Málaga.